Editorial


    A estrutura montada pela Prefeitura de Campos, na Orla I em Guarus, para os desfiles deste ano dos bois campistas foi bem modesta, o que facilitou ter sido toda ocupada.
    No 2º Grupo sagrou-se campeão o Boi Jaguar, com o Boi Zulu como vice. Já no 1º Grupo venceu o Boi Travolta, seguido do Boi Pimenta. Os quatro estarão na elite em 2012.

    O Grupo Especial teve como grande vencedor o Boi K-Brunco e no 2º lugar o Boi Brasil. O Boi Beira-Rio acabou rebaixado para o Grupo de Acesso no ano que vem.

Marcelo Sampaio.


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Vamos Recordar? (Sérgio Cordeiro)

Joãosinho Trinta


Não há como esconder a emoção pela “passagem” de João Jorge Clemente Trinta, o Joãosinho Trinta. Artista caprichoso, criativo, inovador. Grande revolucionário na confecção e estilo de se fazer Carnaval. Joãosinho Trinta trouxe os destaques do chão para o alto das alegorias, aumentou o tamanho e a proporção destas. Utilizou materiais diversos: luxuosos e outros simples, mas que, trabalhados, produziam efeito de brilho e riqueza. Com certeza, seus trabalhos estão e ficarão marcados como ícones do Carnaval e além disso, como representantes maiores dos anseios de um público trabalhador, que durante poucos momentos, vivia seus sonhos carnavalescos em meio ao luxo e à realidade do país.

Uma grande resposta. Assim pode ser definido o desfile da Beija-Flor de Nilópolis, quando apresentou em 1989 o enredo "Ratos e Urubus, larguem minha fantasia". Joãosinho Trinta fornecera uma grande resposta aos críticos de seus desfiles. Rotulado de "desvirtuador do Carnaval", "introdutor do luxo excessivo nas escolas", muitos não conseguiram entender as obras-primas que, com muita criatividade e ousadia, apresentava em seus desfiles.

Além de ser uma resposta aos seus críticos, Joãosinho apresentava um grito de toda sociedade brasileira contra os mandos e desmandos que assolavam (e ainda assolam!) o nosso país, especialmente àquela época de abertura política. Tratava-se de um canto para tentar salvar a nossa terra, como bem explicita o carnavalesco no texto explicativo do enredo:

"Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com nossa terra, com nossa gente, com nosso Brasil. Maldade desequilibrarem totalmente este país que tem, na sua geografia, a forma de um grande coração. Invertido, desequilibrado, de cabeça para baixo, mostrará os contornos de um enorme bunda. E uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira nos seus intestinos para ser expelida. Somente as águas das Bacias do Amazonas e do Prata poderão lavar tantos excrementos. Ou, então, a grande energia do nosso povo quando ele tiver consciência de sua força e de seu valor".

Assim, os "ratos e urubus" eram personificados, além dos críticos do trabalho do carnavalesco, em todos aqueles que trabalhavam para o descenso e descrédito do país e a não valorização de seu povo e riquezas naturais. Joãosinho pretendeu mostrar "o lixo do luxo e o luxo do lixo". Especialmente, o lixo da mente daqueles que, mesmo envoltos em muito luxo, em nada contribuíam, para, palavras dele "o avanço da Humanidade". O enredo e o desfile foram uma grande aposta: ou tudo dava certo, ou daria muito errado. Um risco, que a agremiação aceitou levar para avenida e fazer bonito.

A comissão de frente, coreografada pelo diretor cultural Amir Haddad - que também fazia parte do grupo - representava 14 mendigos, sem uma coreografia ensaiada, mas com objetivo de mostrar a alegria das ruas. Que foram lembrados pelo Orixá Exú – cuja saudação é o refrão da cabeça do samba – responsável pelas ruas.

A seguir, apresenta-se aquela que ficou marcada como a alegoria mais lembrada de toda história do Carnaval brasileiro: O Cristo Mendigo. Trazia a figura daquele, que segundo João Trinta, "foi o maior pedinte da história da Humanidade". A imagem era uma cópia da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, envolto em trapos. Semanas antes do Carnaval, a cúria da Igreja do Rio de Janeiro ingressara com ação judicial para proibir a escola de levar a imagem para avenida. Procedente a ação, a escola cobre o Cristo com plásticos pretos, deixando livre a forma da escultura e acrescenta uma frase significativa: "Mesmo proibido, olhai por nós!". Estava eternizado o Cristo proibido, o Cristo encoberto, o Cristo presente em todas as favelas e em todos aqueles que sofrem com os desmandos, falta de oportunidade e a desigualdade gritante, mas sempre abençoados e que precisam de compaixão.

A seguir, um grupo de mendigos, representado por vários grupos teatrais, que antecediam o carro convite, o qual conclamava todo povo de rua a fazer do lixo suas fantasias e comparecerem a um Baile de Máscaras – o próprio desfile da Beija-Flor.

Uma nova comissão era apresentada, desta vez, rica, relembrando o luxo da corte medieval, desta vez, coreografada pelo próprio João Trinta (que é bailarino formado pelo Theatro Municipal do Rio), anunciando o setor medieval e o fausto da corte. O setor continuava, apresentando a riqueza medieval, a qual se concentrava nas mãos de poucos e esta situação continua nos dias atuais, nos costumes e nas dificuldades enfrentadas pela maioria com poucos recursos, mas em busca sempre do eterno equilíbrio. Este setor encerrava-se com o luxo do lixo, a tradicional destaque Linda Conde, trazia fantasias suas, usadas em desfiles anteriores da própria Beija-Flor.

O luxo exacerbado de todos os tipos de igrejas era contestado por João Trinta e os lixos que dela derivavam. Os loucos, decorrentes da fome e da miséria também foram convidados e se fazem presentes, fantasiados nos grandes loucos da história mundial, culminando com a chegada dos quatro cavaleiros do Apocalipse.

E seguiam o lixo do sexo, das mentes poluídas, representados numa grande sauna romana; o lixo da imprensa marrom e sensacionalista, que se importa apenas com a venda de notícias; o lixo da política brasileira – tão conhecido e ainda tão presente, com o prédio do Congresso Nacional, em Brasília, adornado em verde e amarelo; o lixo dos brinquedos violentos, em detrimento do costume lúdico dos brinquedos antigos.

Chegava o lixo dos alimentos desperdiçados no fim das feiras, com a representação de uma carruagem de Cinderela, estilizada, cujos puxadores eram os ratos. Conduziam ao banquete oferecido aos convidados desse baile, composto pelos lixos das pessoas da alta sociedade (esse era o carro que João Trinta mais apostava antes da proibição do abre-alas).

O desfile terminava com um grande banho de águas, o dos meninos de rua no chafariz da Candelária, representando a nova geração que iria construir a nova era – os erês, em um novo milênio, e o banho do carro pipa dos garis, lavando a avenida por onde a escola derramara os "frutos de sua imaginação".

Um desfile que ficou eternizado, marcado. Envolto em muita alegria e aclamado por todos, inclusive a crítica tão combatida por Joãosinho Trinta. Na apuração, a escola empata no mesmo número de pontos com a Imperatriz Leopoldinense e, no desempate, devido às únicas três notas 9, que recebera, sagra-se vice-campeã pelos julgadores, mas com certeza, a campeã do povo, e eterniza seu desfile. Reza a teoria da conspiração, que pelo momento de abertura política do país, seria melhor que um desfile mais tradicional, exaltando uma data cívica nacional vencesse, uma vez que um desfile tão revolucionário poderia influenciar demais as mentes das pessoas.

Vale ressaltar que o samba escolhido não era o melhor (dito por quem esteve presente àquela final), mas foi escolhido por trazer a saudação às entidades de rua, que abrem os caminhos em seu refrão da cabeça.

No desfile das campeãs, a agremiação traz faixa com os dizeres: "Ele teve um Judas, a Beija-Flor teve três", em referência aos julgadores de samba-enredo, evolução e conjunto que atribuíram as notas 9, fazendo a escola perder o título. Nas imediações dos setores 7 e 9, componentes da escola começam a descobrir o Cristo mendigo, revelando partes da escultura, permanecendo apenas a cabeça e uma das mãos cobertas.

Desfile que fez história e, com certeza, faz parte dela.

Obrigado, Joãosinho Trinta, por todas as fantasias, frutos de sua fértil imaginação, materializadas durantes seus desfiles de Carnaval. Obrigado por acender essa paixão pelas escolas de samba, enquanto instituições maiores representativas das alegrias e felicidades de um povo que vive pelo Carnaval, ama, sente todo esse espírito de encontro com a verdade maior, aquilo em que se crê e acredita. Mago do Carnaval, continue iluminando a inspiração dos que amam e trabalham no Carnaval para que revolucionem sempre os desfiles e proporcionem espetáculos tão bonitos quanto os que estarão presentes em nossas mentes e corações.

 

Samba de enredo: Ratos e urubus, larguem a minha fantasia

Compositores: Betinho, Glyvaldo, Zé Maria e Osmar

Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

Reluziu... É ouro ou lata
Formou a grande confusão
Qual areia na farofa
É o luxo e a pobreza
No meu mundo de ilusão

Xepa de lá pra cá xepei
Sou na vida um mendigo
D
a folia eu sou rei

Sai do lixo a pobreza
Euforia que consome
Se ficar o rato pega
Se cair urubu come

Vibra meu povo
Embala o corpo
A loucura é geral
Larguem minha fantasia
Que agonia... Deixem-me
Mostrar meu Carnaval

Firme... Belo perfil!
Alegria e manifestação
Eis a Beija-flor tão linda
Derramando na avenida
Frutos de uma imaginação

Leba - laro - ô ô ô ô
Ebó lebará - laiá - laiá – ô


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