Editorial


    A Prefeitura de Campos, através da Secretaria Municipal de Cultura, está planejando realizar a segunda edição do Seminário Repensando o Carnaval.
    O dito cujo deverá acontecer ainda neste semestre no Teatro de Bolso e desta feita vai contar com a presença de palestrantes de outras cidades.

    Espero que os carnavalescos campistas não só participem, mas tenham suas opiniões e principalmente decisões em relação aos desfiles 2011 respeitadas pelo poder público!

Marcelo Sampaio.


Leia a coluna "Órbita Carnavalesca", atualizada às quartas-feiras, nos sites:

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Vamos Recordar? (Sérgio Cordeiro)

Beija-Flor 1998


Quarta colocada em 1997, ainda naquele ano, o Carnavalesco Milton Cunha pede seu afastamento da Beija-Flor de Nilópolis. Mesmo após o Sr. Anízio ter oferecido todas as condições para continuar na casa, Milton decide por vez, seguir outro caminho.

 

Sem profissional, a Beija-Flor abre nova seleção (a primeira havia sido em 1994, na qual o próprio Milton Cunha fora o vencedor) para escolha do enredo. Vence o carnavalesco Amarildo de Melo - que havia subido a Caprichosos de Pilares, também em 1997, para o Grupo Especial. A proposta de enredo baseara-se no livro "O mundo místico dos Caruanas e a revolta de sua ave", escrito pela única Pajé do Brasil, Zeneida Lima, paraense, nascida na Ilha de Marajó. A temática do livro era a pajelança cabocla, baseada em rituais e tradições indígenas, que, mesmo as tribos sendo dizimadas pela ação do colonizador, aquelas foram perpetuadas pelos caboclos habitantes da ilha.

 

Ainda incomodado pela saída de Milton Cunha, o diretor de harmonia da agremiação, Laíla, resolve formar o embrião da tão criticada comissão de Carnaval. Sua idéia era nomear e valorizar os profissionais envolvidos na concepção e realização de um desfile, tentando diminuir o poder centralizado nas mãos de uma única pessoa. Assim, ganham notoriedade o figurinista Cid Carvalho, que já era o grande auxiliar de Milton Cunha; o Arquiteto Fran-Sérgio, responsável pelo dimensionamento e construção das Alegorias; os assistentes de barracão Paulo Führo e Victor Santos, ainda da época de Joãozinho 30 na escola; o coreógrafo Ubiratan Silva, que introduziu as manifestações cênicas na escola. Uma grande polêmica que deu certo, mostrou resultado, consolidou-se e que perduraria por muitos anos ainda.

 

Tratando de uma temática paraense, a Beija-Flor conseguiu apoio e patrocínio do governo daquele estado, visando divulgação das belezas e cultura do local, sendo então o nome do estado do norte acrescido ao título original e apresentado o enredo "Pará - O Mundo Místico dos Caruanas nas Águas do Patu-Anu".

 

Caruanas são as energias encantadas, auxiliadoras do mundo dos viventes, responsáveis pelas trocas e interações entre os seres humanos e os seres da natureza.

 

O desfile trazia uma escola renovada, mas com os elementos que sempre a caracterizaram: luxo, riqueza, criatividade. Retornam ao azul como cor predominante do desfile e o resgate definitivo da Comunidade Nilopolitana como essência e importância, centro do desfile. Apresentava ainda como novidade as alegorias decoradas com placas de alumínio, unidas apenas por encaixe, sem nenhuma solda, "mágicas de Carnaval", como dizia o Carnavalesco Shangai, responsável por essa técnica.

 

A apresentação da escola começava pela comissão de frente “Povo de Auí”, coreografada pela Ghislaynne Cavalcanti (em seu segundo ano na escola), representando o Ritual da Pajelança, marcando o retorno de Jorge Lafond à agremiação onde iniciara seus desfiles carnavalescos.

 

O Abre-alas trazia no seu primeiro módulo o Girador, um grande pote de barro, surgido no local onde hoje se encontra a Ilha de Marajó, responsável pela construção das sete cidades, sobre as águas, as quais serviriam de moradia para Auí e seu povo. Este era um ser de luz, transparente e delicado. Guiado pela curiosidade, Auí mergulha nas águas para tentar tocar o barro e a lama, materiais que formavam o Girador. Tal gesto causa um desequilíbrio e as sete cidades criadas foram tragadas para o fundo das águas e Auí e seu povo transformados em caruanas.

 

Esse desequilíbrio precisava de uma orientação, um mantenedor que deveria reger os caruanas e a quem estes deveriam obediência e que perpetuaria a vida sobre as águas. Daí, do girador nasce o Patu-Anu, representado no segundo módulo do abre-alas, o grande útero sagrado, que comandaria os caruanas, em sua missão de curar o mundo.

 

Seguem-se as energias responsáveis pela criação do mundo, até chegar à formação da atual Ilha de Marajó e os seus habitantes, os índios iniciadores da pajelança. Apresentava as sete cidades submersas e as energias caruanas que se originaram com a submersão, envoltas em muita espuma, simbolizando o descanso dessas energias a cada estágio evolutivo.

Foram apresentadas as caruanas, incorporadas em cada animal, dando destaque especial ao Beija-Flor, que guardava os segredos do culto e da doutrina, até chegar à Barca de Casco de Tartaruga, que transportava as energias até o mundo dos seres humanos. Surge o Peixe de sete asas, através do qual eram feitas as trocas de energias entre os Pajés e o Patu-Anu. Com o desequilíbrio causado por Auí, emergem as terras atuais e libertam Anhangá, energia negativa, que causava os males à natureza, presa na Casa de Açum. Para curar essas energias negativas, apresentam-se os segredos da Pajelança, trazendo a Pajé Zeneida Lima, comandando o ritual de purificação dessas energias.

 

Por fim, as energias continuam vivas e protegendo a natureza, através da extensão desse mundo místico, o próprio estado do Pará, com seus Búfalos, cultura ribeirinha, das ervas encantadas, dos vendedores do Mercado Ver-o-peso, do carimbó, lundú e síria (danças típicas daquele estado).

 

Um grande desfile, embalado por um samba de enredo fortíssimo, um dos melhores de toda a safra da Beija-Flor, que não teria outro caminho, senão a vitória. E assim, a escola conquista o seu sexto título, após um jejum de 15 anos. Inesquecível!


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