A partir de hoje, dia 1º de agosto, publicaremos pelo menos uma notícia por dia neste nosso site que é o primeiro e único portal carnavalesco do interior do estado do Rio de Janeiro.

Também estamos planejando uma grande reformulação visual nele, o que com certeza agradará muito aos nossos leitores.

 

Isso sem falar numa surpresa tipo “Bomba, Bomba, Bomba” que colocaremos no ar ainda este ano e que vai revolucionar o mundo virtual de toda a nossa região!


 

 

 


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Vamos Recordar? (Sérgio Cordeiro)

Unidos do Viradouro 1992


O desfile da Unidos do Viradouro, que, infelizmente, passou à história como a lembrança de um grande incêndio completou vinte anos de sua passagem pela Marquês de Sapucaí. Entre conversas e debates pelo mundo do samba, a grande maioria considera um desfile sem fim. Uma vez que as emissoras de televisão mostraram o fogo e esqueceram da continuação do restante do desfile. Entretanto, o enredo era rico, cultural, muito bem planejado e desenvolvido; além de uma plástica rica, luxuosa e impactante, com toda mística e magia que envolvem até hoje os ciganos. Desta forma, nesta recordação emocionada, está a continuação daquela noite iluminada pelas luzes das alegorias da escola e por toda mística do enredo, afinal, “é uma nova era e a magia da sorte chegou”!

Situemos o momento histórico no qual o Brasil se encontrava naquele, agora distante, ano de 1992. A situação política delicada e o panorama econômico em frangalhos procuravam ainda se reequilibrar após o impeachment do primeiro presidente da República eleito por voto direto, após o fim da ditadura militar. Com a economia em recessão, as escolas de samba também amargavam os seus efeitos. Dificuldades na preparação e confecção dos desfiles e dificuldade em reunir componentes pagantes para comporem as alas, uma vez que naquela época, a valorização da comunidade, enquanto integrante primordial das escolas, ainda não era tão divulgada.

Diante deste panorama, em seu segundo desfile pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro, a escola do município de Niterói, do outro lado da Baía da Guanabara, a Unidos do Viradouro, sofreu para preparar seu carnaval. No período pré-carnavalesco, ventos fortes levaram o teto da quadra da escola. Além disso, o seu presidente somente conseguiu subsídios para a confecção do carnaval, dois meses e meio antes do desfile. Pouco tempo para um grande projeto desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes, com auxílio do também carnavalesco Mauro Quintaes.

Ocorre que, misticismos à parte, nesse pouco tempo, todo dinheiro necessário, apareceu e o que se viu na avenida, durante a realização do desfile, foi muito luxo, riqueza, materiais nobres em fantasias e alegorias e um investimento em massa na comunidade de Niterói, mais de duas mil pessoas, de um total de seis mil componentes – a maior escola daquele ano.

O enredo “E a magia da sorte chegou” cantava o povo Cigano, cuja temática estava em destaque por conta de uma novela da época, a qual tinha um núcleo cigano. Reportava-se à Bíblia para tentar encontrar a origem desse povo. Percorria as regiões do planeta em que estiveram, difundiram a forma de trabalho, com ferro e fogo; apresentava todo misticismo e esoterismo existentes em suas crenças, danças e tradições. Daí, pela ignorância na compreensão desses costumes, viviam afastados da maioria da população e acabaram se dispersando pelo globo. Sem uma pátria, do encontro entre a cultura cigana e as demais, choques houveram, eis porque castigados, perseguidos, segregados.

Aportaram no Brasil, degregados de Portugal, trouxeram o pandeiro para as baterias de escola de samba; o uso do violino em danças e músicas alegres; a habilidade de ferreiros nos trabalhos em cobre e ferro. E, claro, a magia também chegou ao país. Objetos, culturas, crenças, métodos de previsão do futuro e desvendo do oculto foram incorporados aos costumes nacionais. O enredo da escola apontava os Ciganos como o povo que guiaria à nova civilização; os arautos da nova Era de Aquarius. E o alicerce desta nova era foi lançado por um líder maior, o cigano rei, que viu no Centro-Oeste do país o local em que aquela nova civilização surgiria – Juscelino Kubitschek, JK.

O desfile iniciava-se com a Comissão de Frente representando os Reis Magos, que foram ao encontro do berço do Rei-menino. Presentes na Bíblia, devido ao estilo nômade e rico com os quais são retratados, além do profundo conhecimento sobre astrologia, são considerados, pela escola, como a menção aos primeiros Ciganos da História da Humanidade. Fantasia dourada, com elementos árabes e mouros, permeados de presentes: ouro, incenso e mirra. A seguir, tripés, representando as carroças nas quais os Ciganos carregavam seus pertences e formavam os limites dos acampamentos.

Surge um grupo Cigano real, de Niterói, ricamente vestido, as damas com trajes vermelhos e lenços nas mãos. Os cavalheiros com traje típico masculino e lenço vermelho na cabeça. A cada refrão, erguiam os lenços e numa típica rodada das danças ciganas, saudavam e aclamavam a escola. Seguem-se quatro quadripés, justamente retratando as danças ciganas, o cortejo e as cartas de tarô, materializadas em vitrais; mostrando, por fim, o caminho em busca do Oriente.

Símbolos místicos, de várias épocas da história humana e civilizações perdidas são apresentados, anunciando a grande estrela-guia, na qual repousava a Coroa Medieval, símbolo da agremiação. Uma coroa dourada, decorada com moedas de Cruzeiro, moeda corrente no país naquele ano, também douradas, fazendo uma nova textura na decoração da coroa. Feericamente iluminada, a coroa representava o sol da nova aliança repousada sobre um pandeiro cigano, o qual, por sua vez, estava sobre a estrela-guia dos Reis Magos ao berço do Rei-menino.

A representação dos signos é introduzida e a primeira parte da ala das baianas, ricamente trajadas em ouro, vermelho e laranja, é apresentada como ciganas astrólogas, ainda na temática zodiacal, herança árabe. O carro do Mercado Oriental é apresentado com camelos, sheiks, odaliscas e janelas que se abrem dos contos das mil e uma noites para desvendar a influência dos corpos celestes na vida humana e na astrologia.

Os sete chakras do corpo humano, segundo a crença hindu, são representados através da flor de lótus, em sete cores. Deuses da cultura indiana são apresentados e surge o grande e rico cortejo de elefantes do Rajá indiano, todos decorados com muito requinte. Os Ciganos começaram a ser degredados na Índia, uma vez que, pelo sistema de castas deviam viver separados dos demais grupos. A saga cigana chega ao Egito, em que, através do estudo dos astros, mais apurado, começou-se a previsão sobre a vida e acontecimentos futuros, devido à influência e posição dos astros no cosmos. O culto politeísta aos vários deuses e as extraordinárias pirâmides foram representados, em posições determinadas de acordo com cálculos matemáticos egípcios, como um grande estudo astronômico da magia cigana. O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Andrezinho e Patrícia, se apresentou com fantasias que se reportavam aos arcanos maiores do tarô, seguidos da Bateria da escola, representando os desbravadores, os primeiros ciganos que chegaram ao Brasil.

Eis que surge a mais bela alegoria do desfile, na qual o carnavalesco Max Lopes mais apostava como efeito representativo – a das Geleiras da Rússia. O povo Cigano chegou à Sibéria e para proteção do frio, reuniam-se em acampamentos para aquecerem-se ao redor de grandes fogueiras, que não foram representadas na alegoria. O carro trazia trenós de neve puxados por cães da raça husky siberiano, rodeados por torres características das igrejas russas, num ambiente totalmente branco e cinza, decorado com algodão, acetato e fibra de vidro. Um dos momentos mais tocantes do desfile.

Os Ciganos chegam à Espanha e em meio aos leques, às touradas e à cultura moura, presente no sul daquele país, introduzem a técnica da leitura das cartas e das mãos pelas cartomantes, fantasia da segunda parte da ala das baianas, fantasia toda em vermelho, com pentes espanhóis nos adereços de cabeça. O fuzilamento de vários Ciganos durante a Guerra Civil Espanhola é lembrado, como mais um capítulo do açoite desse povo. Em Portugal são representados os acampamentos ciganos nas feições modernas, com carroça, cavalos, espetáculos de dança, louvação da cultura cigana, preparando a sua vinda ao Brasil.

Igrejas barrocas representam mais um capítulo da sofrida saga desse povo mágico, trazendo o saudoso Clóvis Bornay como destaque, fantasiado de Rei, que permitiu o ingresso dos Ciganos nas terras brasileiras. As crianças recém-nascidas eram colocadas por seus pais ciganos, nas chamadas Rodas dos Expostos, das Igrejas, para serem cuidados e criados por essas instituições, como forma de escaparem de toda discriminação, uma vez que esses santuários serviam de refúgio e abrigo para os perseguidos. O trabalho em minas e as habilidades como exímios ferreiros no manuseio dos metais também foi lembrado e como esses utensílios acabaram por serem inseridos no cotidiano.

Toda magia e trabalhos envolvendo o misticismo, como leitura de cartas, previsão de futuro, leitura de mão são lembrados. Uma grande contribuição para a cultura universal, auxiliando os estudos astronômicos e astrológicos. Encerrando o desfile, a representação do cigano maior, o cigano rei, cantado pelo enredo. Aquele que teve a visão que no planalto central brasileiro surgiria a nova civilização que conduziria a humanidade à nova era. Assim, numa representação alegórica da Catedral de Brasília, surge a escultura do ex-presidente Juscelino Kubitschek, trajado em vestes ciganas, como o guia iluminado, condutor cigano para o novo amanhecer, despertar desta gigante e gloriosa nação.

A escola encantou a todos: público e imprensa. Aclamavam a Viradouro como a mais bela escola daquela primeira noite de desfiles. Uma apresentação impecável, rica, luxuosa, com o enredo sendo contado de forma clara e original. Entretanto, pelo contingente excessivo de componentes, cerca de seis mil, e a lentidão nas apresentações da Comissão de Frente e do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, a agremiação acabou por apressar seus setores finais e na ânsia de se retirar da avenida no tempo limite, acabou por empurrar apressadamente o carro das Geleiras da Rússia, provocando uma das maiores tragédias dos desfiles na Avenida Marquês de Sapucaí.

Como muitos acreditam, o número treze não brinca em serviço. Logo, ao chegar no início do Setor 13, o referido carro começa a incendiar-se completamente, atrasando o desfile em treze minutos, acarretando na perda de treze pontos para a escola. O incêndio começara no sistema de iluminação de uma das torres. Sendo confeccionado com materiais altamente inflamáveis, o fogo alastrou-se por toda alegoria. Nenhum dos componentes do carro se machucou ou queimou-se. Entretanto, por uma triste coincidência (ou não), o carro que aludia à reunião dos Ciganos em torno de fogueiras e não trazia nenhuma representação material desta, acabou sendo a própria fogueira.

Os bombeiros, presentes à dispersão, sem equipamentos suficientes para debelar o fogo, acabaram por isolar a área, deixando o carro queimar-se até a chegada dos carros-pipa (que estavam no meio da avenida de desfiles), quando, então puderam resfriar os poucos focos de incêndio do carro queimado. Nisso, como dito, a dispersão permaneceu isolada, sem que os carros seguintes pudessem ser retirados, permanecendo na pista, com um pequeno e apertado espaço lateral para a saída dos componentes.

Na apuração, como dito, a escola perdeu treze pontos, em razão do atraso de treze minutos no encerramento de seu desfile, totalizando 281 pontos. Caso não houvesse o atraso, alcançaria o quarto lugar na classificação final. Terminou na nona posição. Não foi rebaixada, pela excelente quantidade de notas dez, nos demais quesitos, antes do incidente.

A sorte tão clamada pelo excelente samba de enredo da escola pode não ter estado presente, mas o desfile foi eternizado pela ousadia do enredo, pela qualidade de seu desenvolvimento em fantasias e alegorias, pela correção de seu desfile e por toda magia inerente aos Ciganos, precursores de uma nova era infinita de luz.

 

Samba de enredo: “E a magia da sorte chegou”

 

Compositores: Heraldo Faria, Flavinho Machado e Gelson Rubinho

 

Intérprete: Quinzinho

 

Uma estrela brilhou, brilhou
Brilhou, brilhou, brilhou,
Tão cintilante
Que, os magos, iluminou
Será, será o novo Sol do Amanhã? Do Amanhã
O arco-íris da aliança
Que não se apagará
Vem do Oriente com sua arte de criar,
Na palma da mão lê a sorte
Com a magia do seu olhar
Chegando ao Velho continente
A marca da desilusão,
Castigo, degredo, açoite,
Por quê tanta discriminação?

A cada passo, a poeira levanta do chão
Ferreiro, feiticeiro, bandoleiro
A liberdade é sua religião

E vem chegando o dono desse chão
No berço a mão do menino
Abriu-se ao destino,
Eis a Nova Canaã
Ê, ê cigano,
Bandeirante em busca de cristais,
Canta, dança, representa,
Dá vida a nossos laços culturais
Cigano rei, mineiro iluminado
O mundo não vai esquecer,
Plantou no solo brasileiro
A realização do amanhecer
É uma Nova Era, ô ô
A Magia da Sorte chegou

O Sol brilhará,
Surge a estrela guia
E sobre a proteção da Lua
Canta Viradouro
Que a sorte é sua.


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