Vamos Recordar? Beija-Flor 1989.
Salve, Amigos! Inicio esta nova coluna, a convite do grande amigo Marcelo Sampaio, na qual tentarei resgatar memórias e lembranças de grandes desfiles que embalaram e encantaram a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Contaremos, também, os rumos e novidades das escolas para o Carnaval 2010. Para começar, uma remissão às duas décadas em que a escola da cidade de Nilópolis apresentou um grande espetáculo em seu desfile.
Uma grande resposta. Assim pode ser definido o desfile da agremiação nilopolitana, que apresentou o enredo "Ratos e Urubus, larguem minha fantasia". Joãosinho Trinta fornecera uma grande resposta aos críticos de seus desfiles. Rotulado de "desvirtuador do Carnaval", "introdutor do luxo excessivo nas escolas", muitos não conseguiram entender as obras-primas que, com muita criatividade e ousadia, apresentava em seus desfiles.
Além de ser uma resposta aos seus críticos, Joãosinho apresentava um grito de toda sociedade brasileira contra os mandos e desmandos que assolavam (e ainda assolam!) o nosso país, especialmente naquela época de abertura política. Tratava-se de um canto para tentar salvar a nossa terra, como bem explicita o carnavalesco no texto explicativo do enredo:
"Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com nossa terra, com nossa gente, com nosso BRASIL. Maldade desequilibrarem totalmente este país que tem, na sua geografia, a forma de um grande coração. Invertido, desequilibrado, de cabeça para baixo, mostrará os contornos de uma enorme bunda. E uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira nos seus intestinos para ser expelida. Somente as águas das Bacias do Amazonas e do Prata poderão lavar tantos excrementos. Ou, então, a grande energia do nosso povo quando ele tiver consciência de sua força e de seu valor".
Assim, os "ratos e urubus" eram personificados, além dos críticos do trabalho do carnavalesco, em todos aqueles que contribuíam para o descenso do país e a não valorização de seu povo e riquezas naturais. Joãosinho pretendeu mostrar "o lixo do luxo e o luxo do lixo". Especialmente, o lixo da mente daqueles que, mesmo envoltos em muito luxo, em nada contribuíam, para, palavras dele "o avanço da Humanidade". O enredo e o desfile foram uma grande aposta: ou tudo dava certo, ou daria muito errado. Um risco, que a agremiação aceitou levar pra avenida e fazer bonito.
O desfile iniciava com a comissão de frente, coreografada pelo diretor cultural Amir Haddad - que também fazia parte do grupo - representando 14 mendigos, sem uma coreografia ensaiada, mas com objetivo de mostrar a alegria das ruas.
A seguir, apresenta-se aquela que ficou marcada como a alegoria mais lembrada de toda história do Carnaval brasileiro: O Cristo Mendigo. Trazia a figura daquele, que segundo João Trinta, "foi o maior pedinte da história da Humanidade". A imagem era uma cópia da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, envolto em trapos. Semanas antes do Carnaval, a cúria da Igreja do Rio de Janeiro ingressara com ação judicial para proibir a escola de levar a imagem pra avenida. Procedente a ação, a escola cobre o Cristo com plásticos pretos, deixando livre a forma da escultura e acrescenta uma frase significativa: "Mesmo proibido, olhai por nós!". Estava eternizado o Cisto proibido,o Cristo encoberto, o Cristo presente em todas as favelas e em todos aqueles que sofrem com os desmandos, falta de oportunidade e a desigualdade gritante, mas sempre abençoados e que precisam de compaixão.
A seguir, um grupo de mendigos, representado por vários grupos teatrais, que antecediam o carro convite, o qual conclamava todo povo de rua a fazer do lixo suas fantasias e comparecerem a um Baile de Máscaras – o próprio desfile da Beija-Flor.
Uma nova comissão era apresentada, desta vez, rica relembrando o luxo da corte medieval, desta vez, coreografada pelo próprio João Trinta (que é bailarino formado pelo Theatro Municipal do Rio), anunciando o setor medieval e o fausto da corte. O setor continuava, apresentando a riqueza medieval.
Este setor encerrava-se com o luxo do lixo, a tradicional destaque Linda Conde trazia fantasias suas, usadas em desfiles anteriores da própria Beija-Flor.
O luxo exacerbado de todos os tipos de igrejas era contestado por João Trinta e os lixos que dela derivavam. Os loucos, decorrentes de fome e de miséria também foram convidados e se fazem presentes, fantasiados nos grandes loucos da história mundial, culminando com a chegada dos quatro cavaleiros do Apocalipse.
E seguiam o lixo do sexo, das mentes poluídas, representados numa grande sauna romana; o lixo da imprensa marrom e sensacionalista, que se importa apenas com a venda de notícias; o lixo da política brasileira – tão conhecido e ainda tão presente; o lixo dos brinquedos violentos, em detrimento do costume lúdico dos brinquedos antigos.
Chegava o lixo dos alimentos desperdiçados no fim das feiras, com a representação de uma carruagem de Cinderela, estilizada, cujos puxadores eram os ratos. Conduziam ao banquete oferecido aos convidados desse baile, composto pelos lixos das pessoas da alta sociedade (esse era o carro que João Trinta mais apostava antes da proibição do abre-alas).
O desfile terminava com um grande banho de águas, o dos meninos de rua no chafariz da Candelária, representando a nova geração que iria construir a nova era, e o banho do carro-pipa dos garis, lavando a avenida por onde a escola derramara os "frutos de sua imaginação".
Um desfile que ficou eternizado, marcado. Envolto em muita alegria e aclamado por todos, inclusive a crítica tão combatida por Joãosinho Trinta, a escola empata no mesmo número de pontos com a Imperatriz Leopoldinense e, no desempate, devido às únicas três notas 9, que recebera, sagra-se vice-campeã, mas com certeza, a campeã do povo, e eterniza seu desfile.
No desfile das campeãs, a agremiação traz faixa com os dizeres: "Ele teve um Judas, a Beija-Flor teve três", em referência aos julgadores de samba-enredo, evolução e conjunto que atribuíram as notas 9, fazendo a escola perder o título. Nas imediações dos setores 7 e 9, componentes da escola começam a descobrir o Cristo mendigo, revelando partes da escultura, permanecendo apenas a cabeça e uma das mãos cobertas.
Desfile que fez história e, com certeza, faz parte dela.